Fronteiras — Augusto: encontrou Roma de tijolos e a deixou de mármore
Uma vitória neste mapa não parece uma vitória. Os partas guardam havia anos os estandartes e os prisioneiros das derrotas dos exércitos romanos. Augusto os recupera sem batalha. Dião escreve que ele os recebeu como se tivesse vencido os partas na guerra, e se gabou de ter recuperado sem luta o que antes se perdera em combate (54.8). Nas Res Gestae, diz com mais força: obrigou os partas a devolver os despojos e os estandartes de três exércitos romanos (29). Os estandartes vão para o templo de Marte Vingador.
A paz ganha o seu próprio altar. Quando Augusto volta da Hispânia e da Gália, o Senado decreta um altar da Pax Augusta no Campo de Marte e sacrifícios anuais de magistrados, sacerdotes e vestais (Res Gestae 12).
E a paz tem ainda o seu próprio contador. As portas do templo de Jano ficam abertas enquanto o Estado está em guerra, e só se fecham quando a vitória garante a paz em terra e no mar. Adivinhe quantas vezes foram fechadas durante a vida de Augusto.
O balanço do próprio Augusto soa orgulhoso. Diz ter levado a paz às Gálias, às Hispânias e à Germânia, “de Gades à foz do Elba”. Afirma ter pacificado os Alpes, do Adriático ao Mar Tirreno, sem guerra injusta contra nenhum povo. Sua frota navegou a leste da foz do Reno até as terras dos cimbros, aonde nenhum romano chegara antes. Enviou dois exércitos à Etiópia e à Arábia: um chegou à cidade de Nabata, o outro a Mariba (Res Gestae 26).
É propaganda do próprio reinado e deve ser lida como propaganda. Dião escreve, por exemplo, que na Hispânia os cântabros e os ástures se rebelaram mais uma vez, foram vencidos e reduzidos à escravidão (54.5). Não temos o relato deles.
Nas fronteiras, calma; no fórum, mármore; os partas devolvem os estandartes. Só na casa de Augusto ninguém tem certeza do seu lugar.